Quando parecia que a polêmica envolvendo a criação de uma nova unidade de conservação na região dos Campos do Quiriri havia esfriado, um novo elemento surge para recolocar a área no centro das atenções: a descoberta de indícios promissores de terras raras justamente na mesma região que esteve no foco das discussões ambientais nos últimos meses.
A revelação faz parte de um amplo levantamento realizado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), que identificou áreas com potencial para ocorrência de elementos terras raras em municípios como Joinville, Garuva e Tijucas do Sul, além de outras cidades dos estados de Santa Catarina, Paraná e São Paulo.
A coincidência geográfica inevitavelmente chama atenção. Nos últimos meses, moradores, produtores rurais, empresários e lideranças políticas da região se mobilizaram contra a proposta do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de criar o Parque Nacional Campos do Araçatuba-Quiriri. O projeto previa uma área de aproximadamente 32 mil hectares abrangendo municípios de Santa Catarina e Paraná.
O objetivo do parque seria preservar mananciais, campos de altitude e remanescentes de Mata Atlântica, além de incentivar atividades ligadas ao ecoturismo. Por outro lado, produtores rurais e moradores manifestaram preocupação com possíveis restrições ao uso da terra, à produção agrícola e ao desenvolvimento econômico local.
Após uma série de audiências públicas e manifestações contrárias, o projeto acabou sendo temporariamente retirado de pauta, conforme anunciado durante audiência realizada em Garuva no mês de abril. Agora, poucos meses depois, surge a informação de que essa mesma região pode esconder uma das riquezas minerais mais estratégicas do século XXI.
O QUE SÃO AS TERRAS RARAS?
Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente raras na natureza. O termo é utilizado para designar um grupo de 17 elementos químicos considerados fundamentais para a tecnologia moderna.
Esses minerais são utilizados na fabricação de baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores, equipamentos médicos, sistemas militares, satélites e diversas tecnologias ligadas à transição energética.
Atualmente, a China domina grande parte da produção mundial desses elementos, enquanto o Brasil possui uma das maiores reservas potenciais do planeta. Apesar disso, o Brasil não possui a tecnologia necessária para separação desses materiais.
RESULTADOS ANIMADORES
Segundo os pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil, algumas amostras coletadas na região apresentaram resultados considerados altamente promissores.
De acordo com o pesquisador Guilherme Iolino Troncon Guerra, responsável pelo projeto, algumas análises registraram concentrações superiores a 8.000 partes por milhão (ppm) de elementos terras raras totais, índices considerados elevados para esse tipo de ocorrência mineral.
Também foram identificadas concentrações significativas de elementos magnéticos como neodímio e térbio, matérias-primas extremamente valorizadas pela indústria de alta tecnologia. Os trabalhos incluem coleta de solo e rochas, além da interpretação de dados geoquímicos e geofísicos. O estudo seguirá até 2027.
EXISTEM JAZIDAS CONFIRMADAS?
Ainda não. O próprio Serviço Geológico do Brasil destaca que a identificação de áreas promissoras não significa automaticamente a existência de jazidas economicamente exploráveis.
Antes de qualquer atividade minerária, seriam necessários novos estudos, definição de reservas, análises tecnológicas, viabilidade econômica e, principalmente, licenciamento ambiental.
UMA NOVA DISCUSSÃO À VISTA
Neste momento, não existe qualquer evidência pública que relacione a proposta do parque nacional ao potencial mineral identificado na região. No entanto, a coincidência entre as áreas abrangidas pela proposta de conservação e os locais que agora aparecem no radar das terras raras certamente alimentará debates nos próximos meses.
Enquanto ambientalistas defendem a proteção dos campos de altitude e dos mananciais da Serra do Mar, outros setores enxergam no potencial mineral uma oportunidade estratégica para o desenvolvimento econômico e tecnológico do Brasil.
A pergunta que fica é: estamos diante de uma simples coincidência geográfica ou de mais um capítulo de uma discussão que ainda está longe de terminar? Uma coisa é certa: os Campos do Quiriri voltaram ao centro das atenções.
📱 Onde as terras raras são utilizadas?
🚗 Veículos elétricos
Elementos como neodímio, praseodímio e térbio são usados na fabricação de ímãs superpotentes que equipam os motores dos carros elétricos.
Sem eles, veículos da Tesla, BYD e outras montadoras seriam muito menos eficientes.
🌬️ Energia eólica
As gigantescas turbinas eólicas dependem de ímãs produzidos com terras raras para transformar o vento em energia elétrica.
Uma única turbina pode utilizar centenas de quilos desses elementos.
📱 Celulares e computadores
Praticamente todo smartphone possui terras raras.
Elas estão presentes em:
- Alto-falantes
- Microfones
- Telas
- Vibração do aparelho
- Chips eletrônicos
O mesmo vale para notebooks, tablets e computadores.
🔋 Baterias
As terras raras ajudam a aumentar a eficiência e a durabilidade de baterias utilizadas em:
- Carros elétricos
- Sistemas de armazenamento de energia
- Equipamentos eletrônicos
💡 Lâmpadas LED
Elementos como európio e térbio são utilizados para produzir cores e aumentar a eficiência da iluminação moderna.
🛰️ Satélites e tecnologia espacial
São componentes fundamentais para:
- Sensores
- Sistemas de comunicação
- Equipamentos de navegação
- Painéis eletrônicos espaciais
🛡️ Equipamentos militares
As terras raras são consideradas minerais estratégicos porque são usadas em:
- Mísseis guiados
- Sistemas de radar
- Visão noturna
- Aviões de combate
- Submarinos
- Equipamentos de comunicação militar
Por isso, muitos países tratam esses minerais como questão de segurança nacional.
🤖 Inteligência Artificial e robótica
O crescimento da IA e da automação industrial aumenta a demanda por terras raras.
Robôs industriais, data centers, sensores avançados e equipamentos de alta precisão utilizam componentes fabricados com esses elementos.
🌎 Por que isso chama tanta atenção?
Porque estamos entrando na chamada transição energética global.
Sem terras raras seria praticamente impossível fabricar em larga escala:
- Carros elétricos
- Turbinas eólicas
- Painéis solares avançados
- Baterias de armazenamento
- Equipamentos eletrônicos modernos
Por isso muitos especialistas chamam as terras raras de "o petróleo do século XXI".
E é justamente isso que torna tão interessante o fato de regiões como Tijucas do Sul, Garuva e Joinville terem entrado no radar do Serviço Geológico do Brasil. Caso futuras pesquisas confirmem jazidas economicamente viáveis, a região poderá ganhar relevância nacional e até internacional no setor mineral e tecnológico.


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