A polêmica dos shows custeados por entes públicos no Brasil com cachês milionários pagos por prefeituras e governos estaduais a artistas renomados vem ficando cada vez mais evidente. Tendo em vista que muitos municípios que gastam cifras astronômicas com essas contratações enfrentam graves deficiências em serviços básicos de saúde, educação e infraestrutura, muitas pessoas vêm se opondo a este tipo de contratação.
Não é atoa que, nacionalmente, esses tipos de contratações estão sendo chamados de "pão e circo", que nada mais é que uma estratégia de controle político em que governantes oferecem benefícios básicos e entretenimento superficial para distrair a população de problemas graves como corrupção e desigualdade, evitando revoltas e garantindo a aprovação popular.
Para se ter uma ideia do tamanho da polêmica que está "engordando" cada vez mais, desde de janeiro de 2024, R$ 5 bilhões de reais foram pagos por prefeituras e governos estaduais a cem artistas brasileiros, isso levando em conta contratos firmados até 31 de março de 2026. Os dados constam no estudo: “Farras - Como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio", de autoria do De Olho nos Ruralistas.
Segundo o levantamento, publicado em julho deste ano, uma centena de bandas receberam em pouco mais de dois anos, um valor superior ao orçamento do Ministério da Cultura para 2026, fixado em R$ 3,26 bilhões. E essa é só a ponta do iceberg. Dentro desse bolo, há uma fatia ainda mais exclusiva: a dos artistas cuja soma de cachês entre 2024 e 2026 ultrapassa a faixa dos R$ 50 milhões. Outra coincidência do levantamento é que dos top 10 artistas mais contratados, apenas dois apenas não têm patrocínio das bets (Seu Desejo e Maiara e Maraísa).
Outro ponto que chama atenção no relatório, é que dos 2.006 municípios que receberam shows públicos desde 2024, 1.069 decretaram situação de emergência no período. Outros 13 decretaram estado de calamidade pública, o que equivale a 53% dos municípios que contrataram shows no período.
Outro detalhe interessante é que apenas 40 artistas dividiram cachês que somam, nada mais, nada menos que R$ 3,08 bilhões em contratações ocorridas entre 2024 a março de 2026. A lista é formada por bandas que receberam mais de R$ 50 milhões, cada uma delas, nesse período. O líder Natanzinho Lima recebeu sozinho, R$ 158,06 milhões para a realização de 336 shows com dinheiro público. O principal destino é o Nordeste. Prefeituras administradas por partidos de direita são as que mais contratam esses artistas. PSD, União Brasil e PP lideram.
No Paraná prefeituras gastaram R$ 625 milhões em cachês com artistas desde 2023
No Paraná, as contratações milionárias com artistas também vêm chamando atenção. Isso porque desde 2023 as prefeituras paranaenses já gastaram mais de R$ 625 milhões em cachês com artistas, a maioria delas com duplas sertanejas. As contratações são feitas com recursos públicos e dispensa de licitação e o município que mais gastou no período foi Santa Terezinha de Itaipu, no Oeste do Estado: R$ 11,9 milhões. A dupla Fernando & Sorocaba foi campeã de arrecadação: R$ 15,6 milhões recebidos em 44 contratos.
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| Santa Terezinha de Itaipu é a campeão de gastos com cachês de artistas. Nos últimos anos o paço municipal investiu quase R$ 12 milhões em pagamentos de artistas - Foto: Divulgação |
No Paraná os dados foram levantados pelo economista Gabriel Bertolucci, de Londrina, por meio do levantamento chamado "Operação Pix na Viola". Ele mapeou as contratações de atrações musicais, humoristas e a realização de rodeios nos 399 municípios do Estado, com dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR) e do Portal Nacional de Contratações Públicas cruzando os dados com os indicadores locais como mortalidade infantil, acesso à rede de esgoto e acesso à educação.
Segundo o levantamento de Bertoluci, enquanto Santa Terezinha de Itaipu investiu quase R$ 12 milhões em shows, 33,19% das crianças em idade de educação infantil estão sem acesso à escola. Além disso, 9,06% da população não tem acesso à rede de esgoto e a taxa de mortalidade infantil da cidade é de 19,96 por 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 12,6 por 100 mi habitantes.
A segunda colocada no ranking é a cidade de Sertanópolis, no Norte do Paraná, que investiu a bagatela de R$ 10.245.500,00 em 34 contratos. Em Sertanópolis, 28,54% das crianças em idade de educação não tem acesso a escola e 10% da população 10% não conta com acesso à rede de esgoto.
Marechal Cândido Rondon aparece em terceiro, com gastos de R$ 9.905.819,00 em 54 contratações. Nesta cidade, 30,81% das crianças não têm acesso à educação infantil e 64,31% não têm acesso à rede esgoto.
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| Fazenda Rio Grande, na RMC, gastou mais de R$ 9 milhões nos últimos anos com contratação de shows |
Em quarto lugar aparece Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), que dedicou dos cofres públicos municipais, nos últimos três anos, R$ 9.866.800,00 para pagamento de cachês milionários para artistas brasileiros.
Ranking de cidades paranaenses que mais gastaram com contratação de shows:
1 – Santa Terezinha de Itaipu – R$ 11.938.800,00
2 – Sertanópolis - R$ 10.245.500,00
3 – Marechal Cândido Rondon - R$ 9.905.819,00
4 – Fazenda Rio Grande - R$ 9.866.800,00
5 – Jacarezinho – R$ 9.512.500,00
6 – Sengés – R$ 9.220.950,00
7 – Pinhão – R$ 11.584.332,33
8 – Ivaiporã – R$ 8.336.650,00
9 – Telêmaco Borba – R$ 7.966.800,00
10 – Itaipulândia – R$ 7.890.750,00
Ranking de faturamento
1 – Fernando & Sorocaba – R$ 15.695.000,00 (44 contratos)
2 – Guilherme & Benuto – R$ 12.710.000,00 (46 contratos)
3 – Ana Castela – R$ 12.680.000,00 (20 contratos)
4 – Zé Neto & Cristiano – R$ 12.339.500,00 (17 contratos)
5 – Clayton & Romário – R$ 11.706.800,00 (50 contratos)
6 – Maiara & Maraísa – R$ 11.406.000,00 (20 contratos)
7 – Luan Pereira - R$ 1.353.210,00 (47 contratos)
8 – Traia Véia - R$ 10.963.000,00 (48 contratos)
9 – Leonardo – R$ R$ 10.475.000,00 (17 contratos)
10 – Matogrosso & Mathias – R$ R$ 9.966.500,00 (43 contratos)
Fonte: "Operação PIX na Viola - Gabriel Bertoluci"
Operação “Pão e Circo” investiga cartel e fraudes em contratos de shows em Santa Catarina
A discussão sobre os cachês milionários pagos com dinheiro público ganhou um capítulo ainda mais grave em Santa Catarina. No dia 7 de julho de 2026, o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO), do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), e a Polícia Civil deflagraram a Operação “Pão e Circo”, que investiga um suposto esquema de cartel, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitações destinadas à contratação de shows com artistas de renome nacional.
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| A operação cumpriu 50 mandados de busca e apreensão em 19 municípios — 18 em Santa Catarina e um no Rio Grande do Sul - Foto: MPSC |
Segundo o MPSC, empresários do ramo de eventos teriam formado um grupo para eliminar a concorrência, manipular preços e dominar o mercado de apresentações contratadas por municípios catarinenses. A suspeita é de que as empresas simulavam disputas entre si e influenciavam a elaboração de editais com regras restritivas, de maneira que apenas integrantes do próprio grupo tivessem condições de vencer as licitações.
A investigação aponta ainda que empresários e agentes públicos teriam recorrido ao pagamento e ao recebimento de propina para garantir a continuidade do esquema. Parte dos valores obtidos irregularmente seria ocultada por meio de transferências financeiras, saques em espécie e outras movimentações destinadas a dificultar o rastreamento do dinheiro.
Apontado pelas investigações como suposto líder do cartel, o empresário José Clemir Spinelli foi preso preventivamente. O prefeito de Governador Celso Ramos, Marcos Henrique da Silva, também foi afastado de suas funções por determinação judicial. É importante destacar que as medidas são cautelares e que os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.
A operação cumpriu 50 mandados de busca e apreensão em 19 municípios — 18 em Santa Catarina e um no Rio Grande do Sul. As diligências ocorreram em residências, empresas e repartições públicas de cidades como São Bento do Sul, Mafra, Canoinhas, Itaiópolis, Três Barras, Governador Celso Ramos, Bombinhas, Brusque, Itapema e Porto Belo.
Além da prisão e do afastamento, a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 9 milhões em bens e valores dos investigados. O objetivo é assegurar recursos para uma eventual reparação dos prejuízos causados aos cofres públicos. Também foram impostas restrições para contratar com o poder público, proibições de acesso a repartições municipais e impedimentos de contato entre investigados e testemunhas.
De acordo com o MPSC, os materiais apreendidos foram encaminhados à Polícia Científica para a realização de perícias. Como o processo tramita sob sigilo, novas informações poderão ser divulgadas conforme o avanço das investigações e a eventual liberação dos autos.
O próprio nome da operação faz referência à antiga política romana do “pão e circo”, utilizada para oferecer alimentos e grandes espetáculos à população enquanto problemas políticos e sociais eram deixados em segundo plano. No caso catarinense, contudo, a investigação vai além da discussão sobre prioridades administrativas: o que está sob apuração é a possível utilização das contratações de shows para fraudar licitações, direcionar dinheiro público e pagar vantagens indevidas.




