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Sinal de alerta: Brasil bate recorde de empresas em recuperação judicial e crise chega aos pequenos negócios

Nesta quarta-feira dona de Habib's e Ragazzo entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265,2 milhões
Foto: Divulgação
 

As placas de “aluga-se” espalhadas por salas e pontos comerciais de muitas cidades brasileiras podem até transmitir uma impressão localizada. Mas, quando observadas ao lado dos indicadores de endividamento e recuperação de empresas, ajudam a ilustrar um fenômeno mais amplo que vem chamando a atenção no país.

O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial ativa, segundo o Monitor RGF-BizDoc, levantamento elaborado com informações da Receita Federal e dos Tribunais de Justiça. O número representa crescimento de 6,2% em relação ao final de 2025. Em maio, o estoque chegou a 6.513 companhias, o maior número registrado pela série.

E existe um detalhe especialmente preocupante: o problema está avançando entre os pequenos negócios. Desde o início de 2023, a incidência das recuperações entre microempresas mais que dobrou. O número absoluto de microempresas nessa situação saltou de 513 para 1.575 CNPJs. Entre as empresas de pequeno porte, a incidência aumentou 69%.


NÃO É APENAS O PEQUENO EMPRESÁRIO

Se de um lado milhares de pequenos negócios tentam sobreviver, do outro estão algumas das marcas e companhias mais conhecidas do país, envolvidas em processos de reestruturação que somam dezenas de bilhões de reais.

Um dos casos mais emblemáticos é o da Raízen, gigante dos setores de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis. A companhia iniciou uma gigantesca renegociação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas.

 Raizen iniciou uma gigantesca renegociação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas - Foto: Divulgação

Outro sinal veio da Braskem. O Conselho de Administração da petroquímica aprovou nesta semana o ajuizamento de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas, montante superior a R$ 50 bilhões. A empresa enfrenta, além da pesada dívida financeira, desafios relacionados ao mercado petroquímico e aos passivos decorrentes do desastre ambiental de Maceió.

Uma das marcas mais tradicionais do comércio brasileiro entrou com pedido de recuperação judicial em agosto, envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo

No varejo, talvez o exemplo mais simbólico seja o Grupo Casas Bahia. Uma das marcas mais tradicionais do comércio brasileiro entrou com pedido de recuperação judicial em agosto, envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo. Entre as razões apresentadas pela própria companhia estão juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre consumo e capital de giro.

A situação financeira total da companhia é ainda maior: considerando também créditos que ficam fora da recuperação, o endividamento alcança aproximadamente R$ 28 bilhões.

Na área da saúde, a Oncoclínicas também recorreu à recuperação extrajudicial para reorganizar aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas. A Justiça concedeu proteção contra cobranças por 180 dias enquanto a companhia negocia com seus credores.

Até mesmo o Grupo Pão de Açúcar (GPA), uma das empresas mais tradicionais do varejo nacional, entrou nessa lista. Em março, a Justiça aceitou o pedido de recuperação extrajudicial da companhia para renegociação de aproximadamente R$ 4,5 bilhões.

Até mesmo o Grupo Pão de Açúcar (GPA), uma das empresas mais tradicionais do varejo nacional, entrou nessa lista. Em março, a Justiça aceitou o pedido de recuperação extrajudicial da companhia para renegociação de aproximadamente R$ 4,5 bilhões.


JUROS ALTOS PESAM NO CAIXA DAS EMPRESAS

Não existe uma única explicação para todas essas crises. Problemas de gestão, excesso de endividamento, erros estratégicos, mudanças nos hábitos de consumo, concorrência internacional e dificuldades específicas de cada setor também precisam ser considerados.

Mas existe um componente que aparece repetidamente nas análises e nos próprios pedidos apresentados pelas empresas: o custo do dinheiro.

A taxa básica de juros brasileira, a Selic, está atualmente em 14% ao ano, após decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) em agosto. Para empresas altamente endividadas, juros elevados podem representar uma diferença brutal no fluxo de caixa.

O problema se torna especialmente grave para negócios que contrataram grandes volumes de crédito quando os juros estavam muito mais baixos e agora precisam refinanciar ou rolar essas dívidas em condições muito mais caras.

Um levantamento citado pela Reuters mostra a dimensão da mudança também nas recuperações extrajudiciais: foram apenas 16 pedidos em 2021, contra 84 em 2025. Em 2026, dezenas de empresas já haviam recorrido ao mecanismo até meados do ano.


E A CRISE NÃO PARA NAS GRANDES COMPANHIAS

Quando uma gigante entra em recuperação, o impacto pode se espalhar por toda uma cadeia. Bancos, fundos, fornecedores, transportadoras, prestadores de serviços, proprietários de imóveis, trabalhadores e pequenos empresários podem estar entre os credores.

É justamente por isso que a multiplicação dos processos preocupa. Uma grande empresa com dificuldades pode deixar de comprar, reduzir pedidos, fechar unidades, vender ativos, cortar investimentos ou renegociar pagamentos. O fornecedor que perde receita também pode começar a enfrentar dificuldades para pagar funcionários, impostos, aluguel e suas próprias dívidas. Forma-se, assim, uma espécie de efeito cascata na economia.


FALÊNCIAS VOLTAM A CRESCER

Outro sinal de atenção aparece nas falências. O Monitor RGF-BizDoc aponta retomada do crescimento das falências em 2026, depois de um período de maior estabilidade. Ao mesmo tempo, o avanço das recuperações entre empresas menores mostra que o estresse financeiro deixou de estar concentrado apenas em grandes corporações.

Recuperação judicial, vale destacar, não significa falência. O mecanismo existe justamente para permitir que uma empresa economicamente viável reorganize suas dívidas, negocie com credores e tente continuar funcionando, preservando empregos e atividade econômica. A falência ocorre quando a continuidade do negócio se torna inviável e parte-se para a liquidação patrimonial.


DÍVIDA PÚBLICA TAMBÉM CHAMA ATENÇÃO

O cenário empresarial ocorre enquanto as contas públicas brasileiras também enfrentam forte pressão financeira.

Segundo o Tesouro Nacional, a Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,268 trilhões em junho, crescimento nominal de 2,61% em relação a maio. Somente a apropriação de juros acrescentou R$ 93,48 bilhões ao estoque naquele mês.

Dados divulgados nesta quarta-feira (26) mostram que a dívida federal chegou a aproximadamente R$ 9,289 trilhões em julho, enquanto a parcela da dívida vinculada à Selic atingiu 51,1%. O Tesouro passou a admitir que essa participação pode chegar a 53% ainda em 2026.

Isso cria uma relação delicada: juros elevados são utilizados como instrumento de política monetária para controlar a inflação, mas também aumentam o custo do crédito para famílias e empresas e encarecem uma parcela importante do financiamento da própria dívida pública.


UM ALERTA QUE CHEGA ÀS RUAS

É justamente nesse ponto que os grandes números começam a encontrar aquilo que o brasileiro percebe no cotidiano.

Uma loja que fecha, uma sala comercial que fica vazia, uma empresa que reduz funcionários ou um comércio que não consegue renovar o estoque são situações individuais. Não é possível afirmar que todo imóvel comercial vazio seja consequência direta dos juros ou da crise financeira. Mudanças urbanas, novos centros comerciais, comércio eletrônico e características locais também influenciam.

Mas o avanço das recuperações judiciais e extrajudiciais mostra que existe, de fato, um nível elevado de pressão financeira sobre uma parcela relevante do setor empresarial brasileiro. E talvez o sinal mais importante esteja justamente no tamanho das empresas atingidas. A crise alcança desde pequenos negócios familiares até companhias responsáveis por movimentar dezenas de bilhões de reais.

Raízen, Braskem, Casas Bahia, GPA e Oncoclínicas atuam em setores completamente diferentes. Açúcar e etanol, petroquímica, varejo, supermercados e saúde.

Quando dificuldades financeiras relevantes aparecem simultaneamente em segmentos tão distintos da economia, o fenômeno deixa de ser apenas uma sequência de casos empresariais isolados e passa a merecer atenção como um importante sinal de alerta sobre o ambiente econômico brasileiro.

Os próximos meses serão decisivos para mostrar se a redução do número de empresas em recuperação observada entre maio e junho representa o início de uma estabilização ou apenas uma pausa em uma tendência que vem pressionando empresários, trabalhadores e credores em todo o país.

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